Editorial v. 23, nº 89

Fatima Cunha, Marilia Nogueira dos Santos

Resumo


Ao comecar, 2015 tinha tudo para ser mais um ano “comum” no Brasil. Nao teria a copa do mundo da FIFA que 2014 teve e nao seria ano de olimpiadas no Rio de Janeiro, como sera 2016. No entanto, para a Educação brasileira, 2015 foi um ano emblematico. Com poucos meses tivemos troca de ministro, rivalidades entre ministerios acerca de quem deveria, ou melhor devera capitanear as mudancas que tanto sabemos serem necessarias para a melhoria do nosso sistema educacional, entre outras polemicas. Ano de “Patria Educadora” paradoxalmente combinado com ano de cortes extremamente dolorosos no orcamento para a Educação. Primeiro ano de vigencia do novo Plano Nacional de Educação 2014-2024, quando vimos, com alguma sensação de deja vu, estados e municipios correrem para aprovar seus respectivos planos, muitos deles, obviamente, nao logrando exito.

Em se tratando especificamente da area de Avaliação, 2015 tem-se mostrado tambem um ano importante. Ano, por assim de dizer, de comemoracoes. Comemoração dos 25 anos da primeira aplicação do Saeb e dos 20 anos de introdução da Teoria de Resposta ao Item (TRI). Comemoração tambem dos 10 anos de reestruturação do Saeb, com a implementação da Avaliação Nacional do Rendimento Escolar, mais conhecida como Prova Brasil.

Para a Ensaio, 2015 tambem foi um ano extremante importante. Foi o ano em que entramos definitivamente na era digital e pusemos no ar nosso site proprio, com um sistema de submissao online. Buscamos tambem nos adaptar às novas midias. Ano em que buscamos, como de costume, manter nosso elevado padrao de qualidade, reconhecido pelos principais indexadores de periodicos da area, aos quais agregamos com muita satisfação mais um: agora estamos tambem no rol de periodicos indexados pela Redalyc. Dito tudo isso, e com grande prazer que apresentamos mais um número da nossa revista. O número 89, o último de 2015.

Mais uma vez, contamos com valiosas contribuicoes de grandes pesquisadores nacionais e internacionais. Procuramos, como tambem ja e de costume, contemplar neste número, na medida do possivel, as cinco regioes do pais. O leitor tem entao, em maos, um número composto por dez artigos que sao, mais uma vez, resultados de pesquisas serias – muitas delas financiadas por agencias de fomento – e que versam, em sua maioria, sobre politicas públicas.

Abrindo este número, temos o artigo de Silvia Libertad Vaca Gallegos, Beatriz Alvarez-Gonzalez e Ma Belen Paladines Costa, todas da Universidad Tecnica Particular de Loja, no Equador. Intitulado “Los padres tambien cuentan. Validacion del cuestionario “Conociendo a tu hijo, tu hija”: Identificacion de niño(a)s de 9 a 10 años con altas capacidades”, o artigo e resultado de uma pesquisa desenvolvida a partir da aplicação de um questionario aos pais de 239 criancas com idades entre 9 e 10 anos e com altas capacidades. De posse dos questionarios respondidos, as autoras procederam à Analise Fatorial Exploratoria (AFE), chegando ao indice Alfa de Cronbah de 0,89. À guisa de conclusao, as autoras, amparadas por importantes referenciais teoricos, destacam que os questionarios apresentam alta confiabilidade e sao validos.

O ensino medio e o tema de dois artigos deste número. “Cenarios do ensino medio no Brasil”, de autoria das professoras Silvana Mesquita e Isabel Lelis – esta da PUC-Rio e aquela do Centro de Educação a Distância do Rio de Janeiro (CEDERJ) –, traca, a partir de uma revisao bibliografica e tambem de documentos do INEP, um panorama acerca da situação do ensino medio no pais, chamando atencao para o protagonismo que este segmento de ensino tem exercido tanto em pesquisas, quanto em politicas públicas. Neste sentido, o dialogo com o artigo de Roberto Rafael Dias da Silva, da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS-SC) e inevitavel. Sob o titulo de “Politicas de ampliação da jornada escolar para o Ensino Medio no Rio Grande do Sul: um estudo sobre o conhecimento escolar”, o autor aborda as politicas curriculares para o ensino medio no Rio Grande do Sul, no periodo de 2002 a 2012. Para tanto, privilegia as politicas de ampliação da jornada escolar, fazendo mesmo um historico das politicas públicas com este fim naquele estado. Assim, o autor passa pelos Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), que teriam promovido pedagogias de protecao e que foram implementados na decada de 1990, ate chegar ao Programa Ensino Medio Inovador (PROEMI), criado em 2009.

Laeda Bezerra Machado e Jaqueline Andrea Lira Cordeiro Santos, da Universidade Federal de Pernambuco, abordam em seu artigo as escolas organizadas em ciclos de aprendizagem. Para tanto, as autoras privilegiam em sua analise a visao de 20 professores considerados de sucesso e fazem uso da Teoria das Representacoes Sociais de S. Moscovici. Os resultados apresentados pela pesquisa em questao sao, para dizer o minimo, alentadores. Segundo as autoras, os professores de sucesso sao orientados em sua pratica escolar por representacoes sociais positivas que conquistaram gracas ao compromisso e responsabilidade com que exercem a profissao. Neste sentido, para este grupo de profissionais, o potencial transformador da escola nao depende do modo como a mesma esta organizada.

Os planos de educação sao o tema do artigo de Donaldo Bello de Souza em parceria com Janaina Specht da Silva Menezes, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, respectivamente. Como ja mencionado no inicio deste editorial, 2015 tem sido marcado pela corrida de estados e municipios para se adequarem às metas do Plano Nacional de Educação aprovado no ano passado. E justamente esse processo de elaboração e aprovação dos planos de educação que recebe a cuidadosa analise da dupla de professores do Rio de Janeiro. Para tanto, os autores nao se restringem ao movimento mais recente. Ao contrario, fazem um historico do processo e se detem nos planos surgidos no decenio de 2001-2010.

“Trajetorias escolares de adolescentes em conflito com a lei: subsidios para repensar politicas educacionais” e o titulo do artigo assinado pelas professoras Patricia Leme de Oliveira Borba, Roseli Esquerdo Lopes e Ana Paula Serrata Malfitano, todas de Sao Paulo. Privilegiando os historicos escolares de jovens egressos do sistema sociojuridico entre 2001 e 2009, numa cidade do interior de Sao Paulo, as autoras demonstram como o nivel social destes jovens parece estar intimamente ligado à chegada dos mesmos ao ja mencionado sistema.

Representando a produção academica do centro-oeste do pais, temos o artigo dos professores Luis Gustavo Alexandre da Silva, da Universidade Federal de Goias, em parceria com Cesar Luis Sampaio, do Centro Universitario Estacio Radial de Sao Paulo. Intitulado “Trabalho e autonomia do coordenador pedagogico no contexto das politicas públicas educacionais implementadas no Estado de Goias”, o artigo polemiza ao argumentar que as avaliações sistemicas e os principios administrativos gerenciais, quando utilizados como parâmetro para a gestao escolar, comprometem a autonomia dos coordenadores pedagogicos.

As politicas públicas para acesso de pessoas com deficiencia ao ensino superior sao o tema do artigo de Dileia Aparecida Martins, Lúcia Pereira Leite e Cristina Broglia Feitosa de Lacerda. Trabalhando com indicadores educacionais, notadamente dados do Censo da Educação Superior no periodo de 2005 a 2011, as autoras analisam as politicas que privilegiam o aumento de matriculas de pessoas com deficiencia no ensino superior. Mais uma vez, o Plano Nacional de Educação aparece como especie de pano de fundo, posto que a ampliação de matriculas no ensino superior se apresenta como uma de suas metas. E, portanto, neste cenario de expansao, que as autoras buscam entender como se tem inserido os estudantes com deficiencia.

O ensino superior volta a ser abordado no artigo de Alexandre Severino Pereira, Teresa Cristina Janes Carneiro, Gutemberg Hespanha Brasil e Maria Auxiliadora de Carvalho Corassa, todos da Universidade Federal do Espirito Santo. Nesse caso, os autores investigam os fatores que levam estudantes a permanecerem nas universidades por mais tempo do que o previsto na matriz curricular dos cursos de graduação. Segundo os pesquisadores, mais da metade dos estudantes que deveriam ter se formado na Universidade Federal do Espirito Santo, no periodo compreendido entre o segundo semestre de 2007 e o primeiro de 2012, ficaram retidos. Nesse sentido, ao identificarem tais fatores, os autores objetivam fornecer subsidios para que politicas públicas sejam elaboradas no intuito de que o problema diminua.

Tangenciando mais uma vez o Plano Nacional de Educação, a Pagina Aberta deste número da Ensaio ficou a cargo de Gustavo Joaquim Lisboa, da Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilheus. Sob o titulo de “Federalismo Educacional Esfacelado? Um estudo de caso sobre o piso salarial”, Lisboa enfrenta o desafio de analisar a implementação do piso salarial nacional no municipio de Itabuna. No decorrer de sua analise ficam claras as fragilidades do sistema educacional brasileiro.

Percorridos brevemente os artigos que compoem a última Ensaio de 2015, so nos resta reforcar o convite para que visitem o nosso site e nosso blog, alem, e claro, de desejar que desfrutem da leitura!


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DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0104-40362015000400011

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