Editorial v. 24, nº 90

Fatima Cunha, Erika Simone de Almeida Carlos Dias

Resumo


Apresentamos ao público leitor da revista Ensaio: Avaliação e Politicas Públicas o no 90, a primeira edicao de 2016. Os textos aqui publicados tem a pretensao de cooperar com a discussao academica e prestar aos estudiosos da Educação uma importante contribuicao, ao ser uma ferramenta adicional que visa semear novas discussoes e reflexoes, tanto em virtude da atualidade das informações, da pluralidade de concepcoes e assuntos, quanto da fundamentação teorico-metodologica evidenciada nos artigos.

As pesquisas que ora publicamos buscam expor um conjunto de saberes, tematicas e caminhos viaveis que visam à disseminação de conhecimentos variados – como educação integral, cotas, sistema de protecao escolar, relação familia-escola, formação de pesquisadores, Ensino Superior, tecnologias da informação e comunicação –, inseridos no âmbito de campos cada vez mais complexos e cada vez mais investigados, como o da Avaliação e o das Politicas Públicas.

Cada artigo revela a preocupação e o compromisso da revista e dos autores – em sua maioria professores universitarios e/ou pesquisadores nacionais e internacionais –, no que respeita à expansao do conhecimento e à difusao das informações de uma area tao relevante quanto a da Educação. Em funcao da ampla gama de assuntos, pincelaremos nesta secao inicial as principais ideias de cada artigo, para que o leitor possa entrever os enfoques dos textos que se seguem, os quais foram produzidos por autores de diferentes regioes brasileiras e de alguns paises europeus.

Iniciamos o número 90 com uma pesquisa atual e relevante, de Ramon Garcia Perales, professor da Universidade de Castilla La Mancha, Espanha, intitulado “Sexo feminino y capacidades matematicas: desempeño de los mas capaces en pruebas de rendimiento matematico”. Com base em dados verificados na prova “Bateria de Evaluacion de la Competencia Matematica” (BECOMA), o autor analisou as diferencas entre os sexos a partir de marcos referenciais estabelecidos na pesquisa – competicao matematica, alto rendimento e genero –, relacionando as respostas desta prova com o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA, na sigla em ingles), no que diz respeito aos resultados alcancados pelos adolescentes em uma e outra prova de rendimento.

Em seguida, contamos com o texto em coautoria entre a professora Tânia de Freitas Resende, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e Gisele Ferreira da Silva, professora do Ensino Fundamental, intitulado “A relação familia-escola na legislação educacional brasileira (1988-2014)”. Trata-se de uma pesquisa documental que verificou os niveis da interação dos pais com a escola. As autoras demonstraram que um envolvimento efetivo das familias na gestao democratica ainda constitui um desafio para o sistema de ensino brasileiro como um todo, mas que passos importantes foram dados pelas escolas e pelos pais, em funcao de politicas públicas implementadas pelo Estado.

Da regiao Sul do Brasil, apresentamos a pesquisa das professoras e pesquisadoras Magda Floriana Damiani, Renata Moraes Belemann, Ana Baptista Menezes e Helena Goncalves, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que no artigo “Afinal, o uso domestico do computador esta associado à diminuicao da reprovação escolar? Resultados de um estudo longitudinal” expoem as conclusoes de uma investigação que contou com 5.249 integrantes nascidos em Pelotas e que foi financiada pela Uniao Europeia (PrONEX), CNPq, Wellcome Truste Ministerio da Saúde do Brasil, entre outras entidades de fomento à pesquisa. Esta pesquisa demonstrou que o uso do computador no domicilio esteve positivamente associado à diminuicao da reprovação escolar nas idades avaliadas no estudo (11, 15 e 18 anos). As autoras destacaram que o computador precisa ser visto como mais uma ferramenta na busca de solucoes para o enfrentamento do fracasso na escola, em virtude da complexidade do problema.

“Distribuicao espacial dos polos regionais do CEDERJ: uma analise estatistica” e o artigo que se segue. Os autores, Keila Mara Cassiano, Fatima Kazam, Carlos Eduardo Bielschowski e Masako Oya Masuda – respectivamente da Universidade Federal Fluminense (UFF), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da Fundação CECIERJ (Fundação Centro de Ciencias e Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro) –, demonstraram a abrangencia geografica da oferta de cursos superiores por meio da educação a distância pelo consorcio CEDERJ. Em 2012, ano do estudo, ao menos um terco dos municipios do Estado possuia polos de apoio presencial; o CEDERJ possuia alunos ativos nos 92 municipios do Estado; e cerca de 40% destes alunos moravam no mesmo municipio do polo em que realizavam as suas atividades presenciais. Em sua conclusao, os autores evidenciaram que a missao inicial de oferecer ensino público e gratuito em regioes antes nao atendidas estava sendo implementada.

No campo da Avaliação, Artur Marecos Parreira e Ana Lorga da Silva, professores da Universidade Lusofona de Humanidades e Tecnologias, de Portugal, nos apresentam um artigo inovador – intitulado “The use of numerical value of adverbs of quantity and frequency in the measurement of behavior patterns: transforming ordinal scales into interval scales” –, no qual demonstraram os resultados de uma investigação sobre escalas de avaliação, que objetivava melhorar o significado quantitativo e a precisao de escalas ordinais. O estudo incidiu sobre o significado numerico atribuido aos adverbios e locucoes adverbiais. Segundo os autores, a utilização de um raciocinio avaliativo expresso adverbialmente combina a dimensao qualitativa, ligada ao significado da palavra, com uma avaliação quantitativa que lhe e subjacente, mas geralmente imprecisa. Os pesquisadores atribuiram valores numericos aos adverbios e aos seus significados, criando uma escala que combinou perspectivas quantitativas e qualitativas, e posteriormente submeteram os resultados desta escala à analise estatistica e teorica, a fim de melhorar a eficácia dos resultados para que pudesse ser utilizada em outros estudos na area da Avaliação.

O artigo dos professores Paulo S. C. Neves, Andre Faro e Heike Schmitz, intitulado “As acoes afirmativas na Universidade Federal de Sergipe e o reconhecimento social: a face oculta das avaliações”, traz um novo olhar sobre a politica de cotas para o Ensino Superior e reflete a produção academica da regiao Nordeste. Na pesquisa, efetuada com 1.614 universitarios, os autores combinaram metodos qualitativos e quantitativos para discutir de que modo a implementação das cotas influiu na autopercepcao dos estudantes e no cotidiano daquela universidade. Os resultados do estudo demonstraram que havia tensoes entra cotistas e nao cotistas e entre cotistas e professores dos cursos mais prestigiosos. De acordo com a pesquisa, ao contrario do que se possa pensar, estes conflitos nao resultaram em baixa autoestima dos alunos cotistas. Os resultados tambem comprovaram que as politicas afirmativas nas universidades públicas estao longe de serem consolidadas, tendo em vista a falta de politicas de permanencia consistentes, seja de ajuda estudantil, de bolsas para materiais e livros para os cursos considerados mais dispendiosos e ate mesmo de informação solida – nao apenas para os cotistas – acerca da insercao de alunos recem-saidos do Ensino Medio na pesquisa e na vida academica na universidade.

Uma politica pública implementada pela Secretaria de Estado da Educação de Sao Paulo (SEESP) foi analisada com acuidade por Roberto Alves Gomes, professor do Centro Universitario de Votuporanga (Unifev), e por Angela Maria Martins, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas e docente na Universidade Cidade de Sao Paulo (Unicid). De forma pormenorizada, avaliaram o Sistema de Protecao Escolar (SPE), implementado em 2010 nas escolas públicas paulistas. O artigo analisa o papel do PMEC – professor mediador escolar e comunitario –, profissional responsavel pela mediação da violencia e indisciplina nas unidades da rede estadual de ensino. Os autores apontaram os avancos do SPE e as dificuldades para a contratação de docentes que precisavam aprender a superar formas tradicionais de disciplina e de castigo e adotar acoes baseadas no dialogo. A pesquisa aponta que e necessario reorientar práticas profissionais, quebrar modelos tradicionais de trabalho pedagogico e, principalmente, integrar programas da Secretaria de Estado de Educação – como o Sistema de Protecao Escolar e o Plano de Formação Continuada de Professores e Gestores –, a fim de que os resultados na diminuicao da violencia escolar sejam mais visiveis.

Da regiao Centro-Oeste, contamos com a pesquisa do professor Remi Castioni, da Universidade de Brasilia (UnB), que, no artigo “Formação de pesquisadores em educação no Brasil, o papel das agencias e a Educação Basica”, procurou refletir sobre a contribuicao dos programas de pos-graduação em Educação e sua relação com a Educação Basica. Discutiu o processo de distribuicao de bolsas de produtividade em pesquisa do CNPq na area de Educação, indicando o desequilibrio regional que existe, sugerindo o aumento de bolsas para esta area e questionando o modelo de bolsas individualizadas. O autor, em suas conclusoes, defendeu o papel dos grupos de pesquisa e uma redefinicao de criterios para a selecao das bolsas de produtividade, levando-se em consideração as demandas do Plano Nacional de Educação (PNE).

Por fim, a Secao Pagina Aberta oferece o artigo “Educação Integral no Brasil: potencialidades e limites em producoes academicas sobre analises de experiencias”, texto em coautoria entre Marisa Irene Siqueira Castanho e Silvana Gomes Mancini, do Centro Universidade Fieo, de Osasco. As pesquisadoras mapearam e analisaram publicacoes entre 2007 e 2012 concernentes às experiencias de implantação de programas de educação integral no Brasil, detalhando a expansao destes programas e concluindo sua reflexão com propostas para a efetivação de politicas públicas que garantam uma educação de qualidade para criancas e adolescentes.

Finalmente, uma pluralidade de temas e de enfoques científicos e o que a revista Ensaio no 90 oferece ao leitor. Visando sempre à disseminação do conhecimento e ao favorecimento do dialogo, o qual se faz ainda mais necessario em um ano que sera marcado pelo debate, como aquele ja suscitado pela proposta da Base Nacional Curricular Comum (BNCC) e a necessidade de todos – profissionais da Educação, entidades, associacoes, universidades, sociedade – intervirem e influirem neste processo como sujeitos ativos.

Desejando a todos uma boa leitura, aproveitamos e convidamos o leitor a tambem contribuir para o debate e para o dialogo, conferindo na integra o material aqui publicado, acessando o nosso site e o nosso blog e colaborando para a reflexão acerca dos assuntos abordados.

Fatima Cunha Ferreira Pinto
Editora
Erika Simone de Almeida Carlos Dias
Gerente Editorial


Texto completo:

SciElo


DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0104-40362016000100011

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