A questão da técnica e da tecnologia

Claudio Burlas de Moura

Resumo


A técnica e a tecnologia exercem um fascínio sobre o homem na atualidade. Pode-se, sem exagero, afirmar que vivemos a era da técnica e da tecnologia e seria uma insensatez nos contrapormos a este processo. No ser humano, “o artifício age como uma natureza”, afirma Foucault (2008, p. 29). Encontramo-nos na dependência dos equipamentos técnicos e tecnológicos, que nos incitam constantemente ao seu aperfeiçoamento. Mas, simultaneamente ao seu deslumbre, há um perigo que espreita: é que, correspondente a essa técnica/tecnologia, temos um pensamento que se afirma em sua admiração e pretensão de referência única. Incorre-se, assim no risco de, em meio a esse deslumbramento, ater-se a primazia de uma forma de pensamento que se define pelo uso de instrumentos técnicos e tecnológicos; uma forma de se extrair o conhecimento somente autorizado por meio de operações lógicas, procedimentos predeterminados cientificamente e sob a perspectiva de relações causais estabelecidas. Um modelo de produção de valores a partir de preceitos científicos e tecnológicos.

Não se questiona o valor da técnica ou da tecnologia e nem se sugere substituir por outros modelos de produção de conhecimento. A partir disso, a questão que nesse caso se coloca, merecedora de um maior aprofundamento, é o problema do seu reducionismo, que confere sentido apenas aos eventos desvelados por aquelas, demarcando uma disposição em evadir-se do modo histórico de produção do saber. Um modelo de produção de significados possíveis, possibilitado pela técnica e a tecnologia não é menos verdadeiro que aqueles construídos por outros modelos de apreensão do conhecimento.

Mas, até esse momento utilizou-se indistintamente as expressões técnica e tecnologia e seria ingenuidade acreditarmos em uma sinonímia. Embora apresente graus de aproximação possíveis, estes dois termos podem não significar a mesma coisa, sendo necessário aprofundarmos nas suas possíveis especificidades e significações.

A tecnologia é um processo amplo e abrangente no mundo atual, moldando não só a vida individual e social, mas a própria definição de vida (e corpo). Não consiste apenas em objetos, mas também em sistemas de objetos, em modos de produção desses objetos e em formas específicas de agir, pensar e valorar. Existe toda uma mentalidade e atitude tecnológica diante da realidade da qual se torna cada vez mais difícil se subtrair (CUPANI, 2011).

A tecnologia como modos de produção e ação mediados por uma formação científica a diferencia da técnica, modos padrões de execução de atividades ou domínio de objetos e que não necessitam, obrigatoriamente, do conhecimento de produção para a sua utilização. Mas, o aperfeiçoamento destes mesmos objetos técnicos exige um grau de pensamento abstrato. “Quando ele é parcialmente científico e a inovação técnica é sistemática, fala-se em tecnologia.” (CUPANI, 2011, p. 34). Assim, atribui-se ao termo tecnologia a atividade de transformação (ou transformação da atividade, no caso da técnica) ao combinar-se com a pesquisa científica.

Lidamos e consumimos em profusão produtos derivados de uma ação tecnológica. Intermediados por sistemas tecnológicos, vivemos cada vez mais em função dessas categorias, logo somos também função (funcionamos) tecnológica (mente). A vida moderna tende a assemelhar as formas. Tentado pela tecnologia, estabelece-se um modo hegemônico de procedimentos frente aos acontecimentos, igualando as culturas na disseminação de uma mentalidade tecnológica e cedendo à experiência comum mediados por recursos tecnológicos.

Podemos afirmar então, que a tecnologia tem políticas que implicam em uma determinada forma de poder ou, em outras palavras, para ser mais exato, a tecnologia é efeito de poder: põe em jogo relações estratégicas de controle, eficiência, economia e recursos, assumindo formas não só de objetos-atividades-conhecimentos-atitudes tecnológicas como também de objetos-atividades-conhecimentos-atitudes sociais.

Diante do exposto, cabe tecer algumas considerações. A tecnologia, seja como classe de objetos, tipo de conhecimento, série de atividades ou atitude ante a realidade, suscita algumas questões. As vantagens da tecnologia parecem evidentes, tornando atividades exaustivas em modos rápidos, fáceis e menos laboriosos de execução. Pode-se também arrolar a esses (supostos) critérios de ganhos os benefícios advindos das tecnologias de saúde, comunicação, informação, transporte, etc. Mas, ao mesmo tempo provoca dúvidas quanto à extensão, controle e manipulação da vida pelos aparatos tecnológicos.

A tecnologia tem sido caracterizada como vontade de controle sobre a natureza (tal como a técnica) e de emancipação em relação a ela, exprimindo uma maneira específica de o homem enfrentar o mundo (CUPANI, 2011).

Seria então, a tecnologia, um processo, uma série de intervenções no “natural”? Uma evolução (ou prolongamento) moderna da atividade técnica ou personifica um ethos[1] diverso? Existe afinal uma diferença entre técnica e tecnologia ou esta é mera diferença técnica, engenho de um modo cientifizante de se proceder frente à realidade? Como diferenciar (esse) artifício do modo natural? Há modo natural? Seria a tecnologia a (uma) natureza do homem? Atende a “forças” biológicas, constitucional da condição humana? Ou seria (paradoxalmente) autônoma em relação ao homem, possuindo a partir de seu “disparo” um rumo irrefreável? A tecnologia significa uma ação eficiente que gradativamente vai contagiando (e convencendo do seu valor) a todos, assimilando-nos aos seus critérios de eficiência, comodidade economia e rapidez? E os refugos, subprodutos, restos desprezados e provocados pela ação tecnológica? Seria a poluição, lixo, descarte de materiais imprestáveis ou seríamos nós o rebotalho, vidas descartáveis frente ao progresso tecnológico?


[1] Conjunto de costumes e hábitos fundamentais, no âmbito do comportamento (instituições, afazeres etc.) e da cultura (valores, ideias ou crenças), característicos de uma determinada coletividade, época ou região.


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Referências


CUPANI, Alberto. Filosofia da tecnologia. Revista Filosofia. São Paulo, ano VI, n. 63, p.14-23, set. 2011.

FOUCAULT, Michel. Segurança, território, população. São Paulo: Martins Fontes, 2008.


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